domingo, 22 de maio de 2011

ENEM em 8 passos


22/05/2011 15h33 - Atualizado em 22/05/2011 15h33

Site do MEC explica como fazer inscrição do Enem em oito passos

Inscrições começam nesta segunda, às 10h, apenas pela internet.
Provas estão marcadas para os dias 22 e 23 de outubro.

Do G1, em Brasília
Enquanto inscrições não são liberadas, site dá instruções (Foto: Inep/ Reprodução da internet)Página com instruções para inscrição no site do
Enem (Foto: Inep/ Reprodução da internet)
Antes mesmo do início das inscrições, previsto para esta segunda (23), às 10h, osite dedicado ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) traz instruções, passo a passo, de como se inscrever para a prova.
A aplicação do exame será nos dias 22 e 23 de outubro. O resultado poderá ser usado pelos candidatos para tentar vagas em instituições de ensino superior públicas e particulares.
Os candidatos devem se inscrever por meio da página do Enem na internet até as 23h59 do dia 10 de junho. A taxa de inscrição é de R$ 35.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação responsável pela organização do Enem, espera um total de 6 milhões de participantes nesta edição do exame. 
processo de inscrição foi dividido pelo instituto em oito passos, começando por identificação e terminando com o acompanhamento do processo. Confira os oito passos:
1. Identificação: CPF e nome do candidato
2. Dados pessoais: número de identidade, endereço e informações sobre atendimento especial;
3. Local: escolha do idioma para prova de língua estrangeira, e local de prova;
4. Situação escolar: se terminou ou não o ensino médio;
5. Escola: se estiver cursando o ensino médio, informações sobre a escola;
6. Questionário socioeconômico: pesquisa sobre o perfil dos participantes;
7. Confirmação: o número de inscrição é gerado e as informações podem ser conferidas;
8. Acompanhamento: com o número de inscrição, o candidato imprime o boleto e confere o andamento.

Você, que não sabe o que diz ...

POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?

DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA

Marcos Bagno
Universidade de Brasília
Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia páginae saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentementeconvencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no
mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de
petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da
variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem
transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os
alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,
com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu
modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada
em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de
comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em
perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o
branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se
originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido
como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da
candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais
distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los aomundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz
parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da
gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é
dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la
TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme,
que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três
gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe
devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Quinta economia? BRIC?


Nordeste tem 19,1% de analfabetos entre população com mais de 15 anos

A média nacional é de 9,6%. O abandono escolar chega a 15% nas séries finais do ensino fundamental. Entre os dez estados de todo o país onde os professores ganham menos, sete são da região.

Esta quarta-feira (18) é o terceiro dia de visitas do JN no Ar a escolas públicas dentro da blitz da educação. O destino foi a Região Nordeste. A repórter Beatriz Castro apresenta alguns dados e informações sobre a região, que tem mais de 53 milhões de habitantes.
Em todo o Nordeste mais de 9,5 milhões de crianças estão matriculadas no ensino fundamental em cerca de 66 mil escolas. São 424 mil professores com um problema em comum: “O professor no Brasil ganha mal e, particularmente no Nordeste, ganha mal”, contou Luciana Marques, do Departamento de Educação da UFPE.
Entre os dez estados de todo o país onde os professores ganham menos, sete são do Nordeste. Os professores de Pernambuco têm o pior salário: R$ 1.219, bem menos que a média nacional que é de R$ 1.745.
“A sociedade brasileira não prioriza a educação. A partir do momento em que não é prioridade número 1 do governante, seja o governador ou o prefeito, ele não prioriza a profissão, em termos de um salário adequado, em termos de uma carreira promissora. E, com isso, o Brasil vem perdendo pontos do ponto de vista do seu desenvolvimento educacional”, declarou o conselheiro do Todos pela Educação Mozart Ramos.
Os professores podem ter a mesma formação e a carga horária idêntica, mas os salários são diferentes de estado para estado, de cidade para cidade e dentro do mesmo município. Em escolas vizinhas, os salários variam se forem pagos pela prefeitura ou pelo governo estadual.
A lei estabelece um piso de R$ 1.187 para todos os professores da educação básica com jornada de 40 horas semanais, sem contar os benefícios.
“O piso é uma perspectiva de melhoria salarial”, disse Luciana Marques.
“É preciso estruturar o salário inicial com a carreira, motivação, trazer a motivação para dentro da escola e assim a gente vai começar a fazer a mudança nesse jogo”, destacou o conselheiro do Todos pela Educação.
Quem sabe mais motivado o professor possa transformar dois dados preocupantes: na população com mais de 15 anos, a taxa de analfabetismo no Nordeste é de 19,1%, quase o dobro da média nacional, que é de 9,6%, e o abandono escolar que chega a 15% nas séries finais do ensino fundamental.

Até quando esperar?

Nossas soluções - Artigo Jornal O Globo, sábado, 20/05/2011.

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O Brasil é um país de alta criatividade em políticas sociais, com saídas para amenizar, não para mudar a realidade. A criatividade começou na escravidão, ao invés de aboli-la recorremos à Lei do Ventre Livre. Os escravos sexagenários, os velhos, eram libertados, um eufemismo para abandonados. Até a Abolição da Escravatura aconteceu sem oferecer educação nem terra para os ex-escravos e seus filhos. A Abolição foi um eufemismo para a expulsão dos escravos das fazendas para as favelas.
Modernamente também temos sido campeões de imaginação para soluções parciais.
Como o salário não era suficiente para pagar o transporte do trabalhador até o local de trabalho, ao invés de aumento salarial, criamos o vale-transporte, como se fosse um grande benefício social, quando, na verdade, foi um serviço à economia: garantir a presença do trabalhador na fábrica. A regra é a mesma para o vale-refeição. O salário não era suficiente para assegurar a alimentação mínima de um trabalhador, então a solução foi garantir a alimentação do trabalhador, mesmo que suas famílias continuassem sem comida.
Quando a inflação ficou endêmica, ao invés de combatê-la (só enfrentada em 1994), criou-se a correção monetária, que garantia moeda estável para quem tivesse acesso às artimanhas do mercado financeiro, enquanto o povo continuava com seus salários cada vez mais desvalorizados.
            Hoje, quando o país vive um apagão de mão de obra qualificada, corremos para fazer escolas técnicas, esquecendo que sem o ensino fundamental os alunos não terão condições de aproveitar os cursos profissionalizantes.            
            A Bolsa Escola foi criada para revolucionar a escola. Como isso não foi feito, ela se transformou na Bolsa Família, sendo mais uma das soluções compensatórias agregada ao vale-alimentação e vale-gás.
            As universidades boas e gratuitas são reservadas para os que podem pagar escolas privadas no ensino básico. No lugar de fazer boas escolas para todos, criamos o PROUNI e cotas para negros e índios. O Brasil melhora com essas medidas, mas não enfrenta o problema e acomoda a população, como se agora todos já fossem iguais. Promovem-se benefícios com soluções provisórias, como se elas resolvessem o problema.
A solução adiada seria uma revolução que assegurasse escola de qualidade para todas as crianças, em um programa que se espalharia pelo país, onde todas as escolas fossem federais, como o Colégio Pedro II, as escolas técnicas militares, os colégios de aplicação das universidades.
            Quando a desigualdade social força a separação entre pobres e ricos que se estranham, ao invés de superar a desigualdade constroem-se muros em shoppings e condomínios, separando as classes sociais. Para impedir a convivência de classes, impedimos estações de metr�? em bairros ricos, o que mostra um total desinteresse desses habitantes pelo transporte público.
Falta professor de Física, retira-se Física do currículo escolar. Os alunos não aprendem, adotamos a progressão automática. O Congresso não funciona, o STF passa a legislar. A população fala Português errado, em vez de ensinar o correto a todos legitimamos a fala errada para a parte da população sem acesso à educação. Adotamos dois idiomas: o Português dos ricos educados e o Português dos pobres sem educação; o Português dos condomínios e o Português das ruas. Ao invés de combater o preconceito e a desigualdade, legalizamos a desigualdade.
Ao invés de fazer as mudanças da estrutura para construir um sistema social eficiente, equilibrado, integrado e justo optamos por simples lubrificantes das engrenagens desencontradas da sociedade. Nossas soluções podem até ser criativas, mas são burras e injustas. É a sociedade acomodando suas deficiências. Ao invés de enfrentar e resolver os problemas, nossa criatividade ajusta a sociedade a conviver com eles. E adia e agrava os problemas porque ilude a mente e acomoda a política.
Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mais Polêmica no Caso MEC

Regras da língua portuguesa

MEC lava as mãos no caso dos livros com erros

Publicada em 16/05/2011 às 09h43m
Cássio Bruno
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RIO - O Ministério da Educação informou que não se envolverá na polêmica sobre o livro com erros gramaticais distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático , do próprio MEC, a 485 mil estudantes jovens e adultos. O livro "Por uma vida melhor", da professora Heloísa Ramos, defende uma suposta supremacia da linguagem oral sobre a linguagem escrita, admitindo a troca dos conceitos "certo e errado" por "adequado ou inadequado". A partir daí, frases com erros de português como "nós pega o peixe" poderiam ser consideradas corretas em certos contextos.
- Não somos o Ministério da Verdade. O ministro não faz análise dos livros didáticos, não interfere no conteúdo. Já pensou se tivéssemos que dizer o que é certo ou errado? Aí, sim, o ministro seria um tirano - afirmou ontem um auxiliar do ministro Fernando Haddad, pedindo para não ser identificado.
O ministro não faz análise dos livros didáticos, não interfere no conteúdo
Escritores e educadores criticaram ontem a decisão de distribuir o livro, tomada pelos responsáveis pelo Programa Nacional do Livro Didático. Para Mírian Paura, professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Uerj, as obras distribuídas pelo MEC deveriam conter a norma culta:
- Não tem que se fazer livros com erros. O professor pode falar na sala de aula que temos outra linguagem, a popular, não erudita, como se fosse um dialeto. Os livros servem para os alunos aprenderem o conhecimento erudito.
Na obra "Por uma vida melhor", da coleção "Viver, aprender", a autora afirma num trecho: "Posso falar 'os livro?' Claro que pode, mas dependendo da situação, a pessoa pode ser vítima de preconceito linguístico." Em outro, cita como válidas as frases: "nós pega o peixe" e "os menino pega o peixe".
Autor de dezenas de livros infantis e sobre Machado de Assis, o escritor Luiz Antônio Aguiar também é contra a novidade:
- Está valendo tudo. Mais uma vez, no lugar de ensinar, vão rebaixar tudo à ignorância. Estão jogando a toalha. Isso demonstra falta de competência para ensinar.
Segundo ele, o que estabelece as regras é a gramática.
- Imagina um jogo de futebol sem as linhas do campo. Como vão jogar futebol sem saber se a bola vai sair ou não? O que determina as regras é a gramática. Faltam critérios. É um decréscimo da capacidade de comunicação - observou Aguiar, também professor do curso "Formação de leitores e jovens leitores", da Secretaria municipal de Educação.

domingo, 15 de maio de 2011

Novidades da Terra da Leitura


Acesso à leitura ganha espaço


Crescem iniciativas que oferecem livros e uso gratuito de bibliotecas
MARLENE JAGGI

Detalhe da Borrachalioteca
Foto: João Gustavo Soares
O mineiro Marcos Túlio Damasceno, de 32 anos, sempre foi apaixonado por livros e um observador dos hábitos das pessoas. Licenciado em letras, não deixava de notar o interesse dos amigos e clientes da borracharia do pai pelos jornais e revistas que ficavam entre os pneus, à disposição de quem os quisesse ler. Solícito, decidiu ajeitar uma estante com livros no estabelecimento. A iniciativa agradou tanto aos moradores de Sabará, município a 25 quilômetros de Belo Horizonte, que o professor se jogou de corpo e alma no projeto. Resultado: dos primeiros 70 livros de 2002 passou a um acervo de 20 mil exemplares nas quatro unidades atuais da Borrachalioteca: a sede, que ainda funciona dentro da borracharia; a Sala Son Salvador, no bairro Cabral; o espaço Libertação pela Leitura, aberto dentro do presídio de Sabará, e a Casa das Artes (que abriga uma biblioteca infanto-juvenil e uma Cordelteca). “Acabamos nos tornando referência para os amantes da leitura na cidade”, conta Damasceno.
A Borrachalioteca é um dos milhares de projetos que avançam, Brasil afora, com o objetivo de oferecer à sociedade acesso gratuito à leitura. São iniciativas de todos os tipos e portes, criadas para todos os públicos, pelas mais diversas instituições – de representantes da sociedade civil às três esferas do governo – e que trazem à tona uma realidade pouco percebida: o brasileiro, de fato, lê muito pouco, mas crescem em número e diversidade as alternativas de acesso à leitura no país.
Essa onda pró-leitura inclui programas grandiosos, como o lançamento, em 2009, do Mais Livro e Mais Leitura nos Estados e Municípios, iniciativa do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), dos ministérios da Cultura (MinC) e da Educação (MEC) e do Instituto Pró-Livro, que visa incentivar essas instâncias de governo a criar seus próprios planos de promoção da leitura. Há também projetos pontuais de grande porte, como a reabertura em janeiro da Biblioteca Mário de Andrade na capital paulista, e a inauguração, há um ano, da Biblioteca de São Paulo, assim como iniciativas singelas semelhantes à Borrachalioteca ou ao Jegue-Livro, criado em 2005 em Alto Alegre do Pindaré (MA) e que lança mão dos recursos disponíveis para levar livros a comunidades que, de outra forma, não teriam acesso a eles: um jegue, que sai da Casa do Professor carregando dois jacás coloridos cheios de livros para levar literatura a cinco povoados da região.
“É incrível o poder multiplicador que projetos como esses têm sobre a sociedade”, diz Lourdes Atié, coordenadora pedagógica do Prêmio Viva Leitura. Criado em 2006 por iniciativa do MEC, do MinC e da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), o concurso recebeu até agora 2 mil inscrições no Brasil inteiro. O projeto do Jegue-Livro ganhou o prêmio em 2006. A Borrachalioteca, em 2007. “No início, foi uma surpresa encontrar um Brasil feito de pessoas não eruditas, mas comprometidas em fazer alguma coisa pela cultura. Hoje percebemos que as experiências, vencedoras ou não do prêmio, ganham visibilidade e inspiram iniciativas semelhantes”, diz ela.
Assim como a borracharia, estabelecimentos como açougues e quitandas reservam um espaço para abrigar livros e emprestá-los aos moradores vizinhos. Há também quem desenvolva propostas para seu próprio pessoal. Foi o que fez Kátia Ricomini, de 29 anos, dona da paulistana Translig, empresa de motoboys. Para incentivar o hábito da leitura entre os funcionários, que não tinham o que fazer enquanto aguardavam novas entregas, ela criou, em 2006, o projeto Translivroteca. Três anos depois implantou também o Pegadas da Leitura, que estimula a troca gratuita de livros. Funciona assim: as obras levam na contracapa um resumo do projeto, onde se pede às pessoas que, depois de ler, passem o exemplar adiante, formando uma corrente de leitura. “A pessoa lê o livro, envia um e-mail para a Translig, conta o que achou e ‘liberta’ a obra em algum local. Pode ser no ponto de ônibus, na cafeteria, no metrô – em qualquer lugar onde ele encontre um novo leitor”, diz Kátia.
Para todosA movimentação pela democratização do acesso à leitura lança mão de todos os meios de transporte. O que vale é deslocar materiais de leitura para pontos estratégicos, seja por meio de um jegue, barco, ônibus, caminhão ou metrô. O projeto Embarque na Leitura, por exemplo, gerenciado pelo Instituto Brasil Leitor e apoiado pelo MinC, colocou bibliotecas em seis estações do Metrô de São Paulo que emprestam livros de graça a quem utiliza esse meio de transporte. Desde 2004, 45 mil pessoas já se cadastraram e fizeram quase 500 mil empréstimos. No total, as seis bibliotecas reúnem quase 24 mil títulos.
O meio escolhido pela Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo foi o ônibus. São quatro ônibus-biblioteca que percorrem 20 roteiros fixos para levar leitura à população da periferia carente de equipamentos culturais, na capital paulista. No lugar de ônibus, o Serviço Social do Comércio (Sesc) usa caminhões-baú como base para o projeto BiblioSesc. O primeiro foi implantado em Pernambuco, em 2005. A regional de São Paulo encampou o projeto em 2009 e hoje utiliza dois caminhões – um que vai a cinco comunidades em Interlagos e outro que vai a seis, em Itaquera. “Ainda este ano teremos outros dois”, afirma Francis Manzoni, assistente de leitura da gerência cultural do Sesc-SP.
O projeto atualmente está em todo o Brasil. No total são 27 veículos espalhados por vários estados onde o Sesc tem unidades regionais. Até o final do ano serão 52, diz Lisyane Wanderley dos Santos, assessora técnica de biblioteca. Em 2010, o BiblioSesc recebeu 26,6 mil inscrições de pessoas, em 35 municípios brasileiros.
Um dos critérios do projeto é atender comunidades carentes de equipamentos culturais. Cada caminhão tem estantes com cerca de 3 mil publicações, escada para acesso à carroceria, ar-condicionado (que funciona mediante parceria com instituições locais que cedem energia elétrica) e bibliotecário para dar suporte às atividades. O interessado entra e escolhe o livro, faz a carteirinha na hora e leva para ler em casa, devolvendo na volta do caminhão, 15 dias depois.
AvançoDe acordo com José Castilho Marques Neto, ex-secretário executivo do PNLL e diretor presidente da Fundação Editora da Unesp, o movimento para formar leitores cresceu muito nos últimos anos, principalmente a partir de 2003, quando passou a contar com a decisão política dos chefes de governo ibero-americanos de colocar a leitura como um objetivo a ser alcançado nos países da região. “Estamos num momento de inflexão importante e a hora é de avançar ainda mais nas conquistas, em todos os planos nacionais de leitura que acontecem em 19 países ibero-americanos”, diz ele.
Em sua opinião, no Brasil o projeto Mais Livro e Mais Leitura nos Estados e Municípios trará a capilaridade necessária e fará com que as cidades e estados se apoderem do PNLL, mas ele lembra que o governo federal precisa adotar outras medidas para constituir um país de leitores: institucionalizar o PNLL por lei, para garantir sua perenidade, criar o Instituto do Livro, Leitura e Literatura, para orientar e coordenar a política pública de incentivo à leitura no país, e formar um fundo específico para assegurar recursos continuados à área.
Até agora, os números oficiais preocupam. A última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2008, apontou o índice de 1,3 livro lido por ano por pessoa (descontadas as obras escolares, que, se incluídas, elevariam o resultado para 4,7). “Como o levantamento já tem quatro anos, estamos com a expectativa de que, com os milhares de ações pró-leitura mais recentes, tanto dos governos quanto da sociedade, esse índice tenha aumentado”, diz Castilho.
Apesar dos esforços, no entanto, nem sempre o resultado é o esperado. A intenção do governo Lula de garantir o funcionamento de pelo menos uma biblioteca pública em cada cidade brasileira até 2010 não se concretizou. Dos 1.126 municípios que receberam kits com estantes e livros, somente 215 comunicaram a abertura de bibliotecas ao Ministério da Cultura. Por outro lado, as metas governamentais já não parecem tão distantes. Segundo o 1º Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, feito pela Fundação Getúlio Vargas a pedido do Ministério da Cultura e divulgado em abril de 2010, 79% das cidades brasileiras possuíam ao menos uma biblioteca em funcionamento. O levantamento mapeou os 5.565 municípios do país e identificou 4.763 bibliotecas em 4.413 deles. Em 13% das localidades havia unidades em fase de implantação ou de reabertura e em 8% estavam fechadas, extintas ou nunca existiram.
“O programa Mais Cultura fomentou centenas de projetos para construção, reforma e modernização”, diz Castilho, segundo o qual tão importante quanto o avanço quantitativo é a mudança de conceito de biblioteca – que migrou de espaço sisudo e vazio para áreas abertas a um público maior, com recursos multimídia, alcançando leitores de todas as idades e necessidades.
RenovaçãoSão Paulo é um bom exemplo dessa mudança. A maior parte das 54 bibliotecas públicas da cidade foi revitalizada e quase todo o acervo de 2,2 milhões de exemplares já está no catálogo online. “Durante muito tempo as bibliotecas foram espaços escolares e até por isso havia uma separação entre as destinadas a adultos e as infanto-juvenis. Isso mudou. Além da integração do acervo, os espaços foram reformados, ganharam novos móveis, como estantes, tatames, pufes e mesinhas, e reforço na programação de eventos culturais, o que permite que uma família inteira encontre leitura e entretenimento”, avalia Maria Zenita Monteiro, coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo.
Novinha, a Biblioteca Álvaro Guerra, do bairro de Pinheiros, tem tudo isso e até um jardim de leitura em que crianças, adultos e idosos da região podem ler ou emprestar qualquer um dos 25 mil exemplares do acervo, conta a coordenadora da unidade, Jamile Salibe Ribeiro de Faria. Essa renovação pode ser observada também na Biblioteca Mário Schenberg, localizada na Lapa. Fundada há 57 anos, ela era, até há pouco tempo, um depósito de estantes, lembra a coordenadora, Patrícia Marçal Frias. Inserida no projeto Descobrindo os Encantos da Biblioteca Pública, da Secretaria Municipal de Cultura, virou uma das oito unidades temáticas da cidade – projeto que acrescenta às características tradicionais uma área dedicada a livros e atividades de determinados temas. O da Mário Schenberg é ciência. Lá há livros específicos e ocorrem exposições e até shows, como os do grupo Mad Science.
Na Alceu Amoroso Lima, também situada em Pinheiros, a especialização é poesia. São 3 mil títulos do gênero. Para quem gosta de tradições populares, o endereço é a Biblioteca Belmonte, localizada no bairro de Santo Amaro, com seus 500 livretos de cordel. São também temáticas as bibliotecas Cassiano Ricardo (música), Roberto Santos (cinema), Viriato Corrêa (literatura fantástica), Hans Christian Andersen (contos de fadas) e Raul Bopp (meio ambiente). Até 2012, a cidade ganhará mais duas – uma delas, a de cultura negra, será aberta ainda neste ano, no bairro do Jabaquara.
Além das bibliotecas públicas e temáticas, a cidade tem oito Bosques da Leitura, que funcionam aos domingos em vários parques, como Anhanguera, Ibirapuera, do Carmo e da Luz, e 12 Pontos de Leitura – espaços com no mínimo 60 metros quadrados e acervo de 1,5 mil exemplares, instalados na periferia da cidade, em locais como Jardim Ângela e São Miguel Paulista. Em 2010, o Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo registrou a frequência de 1,2 milhão de pessoas e emprestou cerca de 900 mil livros – não estão computados nesses totais os dados das bibliotecas Mário de Andrade e do Centro Cultural São Paulo.
Fechada desde 2007 para reforma, a Biblioteca Mário de Andrade foi reaberta em janeiro, após um processo de restauração e modernização do prédio e desinfestação do acervo de 200 mil livros, entre os quais uma coleção com 50 mil obras raras e especiais, 27 mil volumes de arte e 42 mil livros circulantes. Com 3,3 milhões de itens, ela abriga o segundo maior acervo documental e bibliográfico brasileiro (o primeiro é o da Biblioteca Nacional, no Rio de janeiro).
Além disso, o paulistano pode se preparar para mais novidades: a reforma da Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato; a inauguração neste ano do novo prédio da Biblioteca Sérgio Buarque de Holanda, em Itaquera, e a abertura do Centro de Formação Cultural de Cidade Tiradentes, que está em construção e prevê uma biblioteca de aproximadamente 500 metros quadrados.
InclusãoNesse processo de modernização e mudança de conceito das bibliotecas, os públicos com necessidades especiais são sempre lembrados. O melhor exemplo dessa preocupação está na Biblioteca de São Paulo, inaugurada em fevereiro de 2010 exatamente onde funcionava o Carandiru, o maior presídio da América Latina e um dos mais violentos que o país já teve. Ali, além de um acervo em braile, o usuário encontra cadeiras e estantes adequadas a faixas etárias e mesas reguláveis de fácil adaptação para cadeiras de rodas. A unidade dispõe ainda de mil títulos de audiobooks e até de umscanner que transforma páginas de livros convencionais em áudio ou placas de braile, o que permite acesso dos deficientes visuais à literatura geral. Para quem não pode movimentar as mãos, a biblioteca oferece folheadores automáticos de páginas. “A Biblioteca de São Paulo é um marco, um lugar mágico em que foram investidos R$ 12,5 milhões”, informa Adriana Ferrari, idealizadora do projeto e coordenadora da Unidade de Bibliotecas e Leitura da Secretaria da Cultura do estado de São Paulo. De fato, em vez de celas e violência, o que se vê ali é um parque arborizado e um prédio moderno, alegre, que recebe 30 mil pessoas por mês.
Outro diferencial desse estabelecimento, alinhado com o movimento atual que ocorre no país, é a determinação em fazer com que a leitura vire sinônimo de prazer e a biblioteca, um espaço de cultura e entretenimento. Assim, não é de estranhar que a Biblioteca de São Paulo tenha 94 computadores para o público acessar a web gratuitamente durante duas horas e meia por dia. Inspirada no modelo da Biblioteca de Santiago, no Chile, tem espaços organizados por cores que indicam as faixas etárias – os destinados às crianças têm mesas, tatames, estantes baixas. Resultado: virou um grande centro de convivência onde se pode ler o jornal do dia, uma revista estrangeira, fazer empréstimo de títulos de literatura, observar o ranking dos mais procurados no painel eletrônico, assistir a um show, jogar xadrez e até mesmo ter acesso a literatura erótica. No seu primeiro ano de funcionamento, recebeu 317 mil pessoas e emprestou mais de 180 mil livros, informa a diretora, Magda Maciel Montenegro.
Com 30 mil itens, entre livros, DVDs, CDs, revistas, quadrinhos e jornais, a biblioteca tem até um terminal de autoatendimento, que permite ao usuário cadastrado liberar o empréstimo sozinho. Os mais procurados, contudo, podem desapontar os intelectuais: são geralmente best-sellers. “Todos temos um tempo próprio para amadurecer nossas leituras”, diz Adriana. “O que não se pode é não dar acesso aos livros.” É por isso, segundo ela, que o governo do estado prepara uma nova unidade nos moldes da Biblioteca de São Paulo, no Parque do Belém.
Na escolaSegundo Lourdes Atié, do Prêmio Viva Leitura, apesar de todo o esforço que vem sendo feito, o estímulo à leitura ainda tem um longo caminho a percorrer, principalmente nos estabelecimentos de ensino. “Não basta ter acervo. Falta intencionalidade; pensar no que se pode fazer para que a escola não vire um depósito de livros”, diz ela. Daniela da Costa Neves, de 28 anos, já tem o seu jeito. Professora orientadora da Sala de Leitura da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria Berenice dos Santos, que fica no Jardim das Flores, na região de Guarapiranga, criou o Projeto Semana Literária, que, pelo terceiro ano consecutivo, coloca 470 crianças de 6 a 10 anos em contato com ilustradores, escritores e contadores de histórias, para estimular nelas o prazer da leitura.
As 45 bibliotecas dos Centros Educacionais Unificados (CEUs) são outro exemplo de que a leitura vem ganhando espaço nas escolas, embora o censo escolar divulgado no ano passado pelo Ministério da Educação mostre que ainda há muito a fazer. Segundo o levantamento, entre as escolas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental apenas 30,4% têm biblioteca. Do sexto ao nono ano, o índice sobe para 60% e, no ensino médio, para 73,2%.
Dentro ou fora das escolas, não é fácil elevar os índices de leitura no Brasil. “Não podemos nos esquecer de que o problema vem de longe, de nosso tipo de colonização, da exclusão histórica e contínua da maioria da população em relação aos bens culturais e, entre esses, aos livros em particular”, observa Castilho. Em sua opinião, a leitura ainda é considerada um “biscoito fino” pelas nossas elites. A saída? Elaborar uma política pública de longo prazo que assegure esse direito a todos os brasileiros.