quinta-feira, 14 de julho de 2011

Aprendendo a cantar em português


Olá, turma!

                    Hoje começa o nosso breve recesso de julho, porém tentarei continuar mandando notícias do Brasil e do mundo para que vcs possam praticar a escrita.  Descansem, mas não se desliguem da realidade, afinal, o ENEM está chegando. Saudds.


QUINTA, 14 DE JULHO DE 2011, 07H53  ATUALIZADA ÀS 10H16

Cuitelinho

Sírio Possenti
De Campinas (SP)
"Cuitelinho" é o título de belíssima canção "folclórica", já gravada por dezenas de cantores. Sua letra é corpus muito interessante para quem quiser estudar português, isto é, quiser saber como é o português falado no Brasil. Sendo música do folclore, tem evidentemente muitas características da gramática do português popular. As duas mais salientes são as pronúncias "espaia", "parentaia", "bataia", "navaia, "faia", "oio" e "atrapaia" (a consoante grafada "lh" é sistematicamente substituída pela semivogal "y"), e as concordâncias nominais e verbais em "as onda se espaia", "terras paraguaia", "os oio se enche", "fortes bataia"). Observe o caro leitor que, nestes grupos nominais, o plural é marcado apenas na primeira palavra, seja ela um artigo (as onda, os oio etc.), seja um substantivo (terras paraguaia) ou um adjetivo (fortes bataia).
Há mais dados interessantes: ouvindo as diversas gravações, pode-se comparar as pronúncias dos "ee" de "despedi", do "o" de botão, além da variação de "beira / bera", "volta / vorta", do "r" de "garça" e de "corta" etc.
Repito o mantra de sempre que analiso fatos que alguns simplesmente consideram erros: pode-se gostar ou não deles, mas se deveria reconhecer - não sendo obtuso e preconceituoso - que são fatos. Mais que isso, e muito mais importante: que há regularidade nas estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas que caracterizam este dialeto do português. Isto é, trata-se de regras de uma gramática.
Ouvindo as diversas gravações, descobrem-se pelo menos duas coisas. A primeira é que há muita variação, especialmente de pronúncia ou sotaque, que não se percebe quando se lê a letra. A segunda é bem mais curiosa: deixando detalhes de lado, pode-se afirmar que, quanto menos "letrados" são os cantores, mais eles corrigem a letra. Concretamente: Milton Nascimento e Nara Leão, por exemplo, "respeitam" todos os traços populares (espaia, as onda, os oio etc). Outros "corrigem" algumas passagens, mas não todas, mesmo que se percam rimas ( "se espalham", por exemplo). Uma dupla caipira (Rio Negro e Solimões) é a que mais corrige, confirmando a tese apresentada aqui na semana passada: a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.
Um dado curioso: a dupla não só corrige a sintaxe, destruindo diversas características da letra, mas também evita "dei em terras paraguaias" (pela conotação sexual de "dar"). Canta "entrei em terras...". É muita macheza!
Labov diz que o excesso de correção é sintoma de insegurança social. Os "cultos" não têm medo da outra cultura (no caso, traços dialetais). Mas os representantes desta "outra" são inseguros em relação a seu valor, e por isso a corrigem. A inculcação de valores é um verdadeiro massacre.
PS - Acho que Caetano Veloso jamais gravaria Cuitelinho...
CUITELINHO
Cheguei na bera do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na bera da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia ai
Ai quando eu vim de minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia ai
A tua saudade corta
Como o aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a otra faia
E os oio se enche d'água
Que até a vista se atrapaia ai.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.