quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Classe C e a Educação


A escalada da classe C
Ascensão da chamada nova classe média aumenta potencial de mercado para escolas privadas; iniciativas para atender à demanda começam a despontar
 
Lígia Sanchez

Colégio Gislaine Rosati, em São Paulo: 30% dos novos estudantes vieram da rede pública

Dois anos atrás, em 2009, o diretor Maurício Farias voltava os olhos - e as câmeras - para um universo pouco retratado como temática no cinema brasileiro: a educação, simbolizada ali na relação de uma professora carioca de escola pública e de um aluno cujos pais foram mortos por traficantes de drogas, restando ele próprio ameaçado. Em Verônica, que tinha Andréa Beltrão no papel da professora que protege o menino, materializava-se a visão de escola pública mais corrente no país: a de um espaço abandonado pelo poder público, sujeito à violência urbana e com as aulas suspensas ao primeiro tiroteio que ocorra ao seu redor.

Pois é essa imagem pública - de local violento, com faltas frequentes de professor e pouca disciplina - que está na origem de um movimento que começa a se delinear no panorama da educação nacional. Cada vez mais, as famílias da chamada nova classe média, ou classe C emergente, matriculam seus filhos em escolas particulares, e não em escolas públicas. Essas famílias, cuja renda domiciliar per capita varia entre R$ 323 e R$ 1.388, passaram a enxergar a educação como um valor e a preocupar-se com a segurança dos filhos. É o que aponta uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisas Data Popular com 5.003 brasileiros em 44 municípios, segundo a qual a educação dos rebentos já é percebida na classe C como a melhor estratégia de ascensão social. A pesquisa mostra que 89% das pessoas entrevistadas enxergam a educação como o meio mais seguro para alcançar um bom futuro. Além disso, 66% delas atri­buíram à educação dos filhos o caráter de "prioridade". Por fim, 57% dos entrevistados responderam que a escola pública vem piorando em termos de qualidade.

O entendimento de que a escola pública não garante ensino de qualidade é apontado como um dos propulsores da procura das escolas particulares por parte dessas famílias. Segundo os questionários do Data Popular, as instituições privadas oferecem dois tipos de vantagem, que a pesquisa relaciona com a possível oferta de um ensino de qualidade: o regime disciplinar mais rígido, que possibilita aos pais acompanhar mais de perto as questões escolares dos filhos, e a segurança, que faz diferença para mães que trabalham o dia todo.

O movimento, ainda não detectado em todas as regiões do país, é comprovado por dados extraídos das últimas edições da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) também pelo Data Popular. Segundo a instituição, das 5,5 milhões de crianças até 14 anos matriculadas em escolas privadas, 2,7 milhões são da classe C - em outras palavras, 49,2% do total. Quando se observam as classes C, D e E, o número de matriculados sobe para 3,7 milhões, ou 67% do total. A Fundação Getulio Vargas compilou informações que apontam o mesmo movimento. Em 2009, a classe C já representava mais de 50% da população brasileira. Os números se tornam especialmente relevantes porque, entre 2003 e 2009, houve um crescimento de 29  milhões de pessoas na chamada nova classe média. A FGV define este grupo a partir da renda domiciliar, que oscila entre R$ 1.126 e R$ 4.854. 

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